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O que você deve saber sobre o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é considerado um dos transtornos do neurodesenvolvimento mais frequentes, com prevalência

O QUE É TDAH?

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é considerado um dos transtornos do neurodesenvolvimento mais frequentes, com prevalência global de 5,2% a 7,1% em crianças e adolescentes e 2,5% nos adultos, com predomínio no sexo masculino.1-3 Embora tenha início na infância, o transtorno pode persistir ao longo da adolescência e da vida adulta, com diferentes formas de manifestação ao longo do desenvolvimento.3,4

O TDAH caracteriza-se por um padrão persistente de desatenção, hiperatividade e impulsividade, que interfere no funcionamento ou no desenvolvimento do indivíduo, podendo levar a prejuízos no âmbito pessoal, acadêmico, social e profissional.5

O transtorno tem origem no funcionamento do cérebro.6 Algumas áreas responsáveis por manter o foco, controlar impulsos, organizar tarefas e manter a motivação funcionam de forma diferente. Essa diferença tem uma base genética e biológica, ou seja, não é algo que a pessoa “escolhe” ou consegue mudar sozinha. Ao mesmo tempo, fatores do dia a dia, como rotina, ambiente e apoio, também influenciam a forma como os sintomas aparecem.6-8

É fundamental ressaltar que o TDAH não decorre de falhas educativas, falta de limites ou desmotivação. Trata-se de uma condição neurobiológica que impacta a capacidade de autorregulação, exigindo compreensão adequada e intervenções específicas.5,6

O reconhecimento precoce é essencial para reduzir prejuízos e favorecer a qualidade de vida de pessoas com TDAH.5

SINAIS E SINTOMAS

Os sinais do TDAH podem variar bastante de pessoa para pessoa e também mudar ao longo da vida. Eles costumam aparecer de formas diferentes dependendo da idade, da rotina e das características individuais. De modo geral, os principais sinais se organizam em três grupos: dificuldade de atenção, excesso de atividade (agitação) e impulsividade. Esses sinais podem aparecer juntos ou separadamente.3

Desatenção

A desatenção é frequentemente percebida como dificuldade em manter o foco em tarefas prolongadas, especialmente aquelas que exigem esforço mental contínuo. É possível apresentar dificuldade em seguir instruções, tendência de divagar durante tarefas, não concluir atividades iniciadas e demonstrar baixa capacidade de organização, além de esquecer compromissos e perder objetos com frequência.3

Hiperatividade

A hiperatividade manifesta-se como inquietação motora, necessidade constante de movimento em momentos inapropriados, dificuldade em permanecer sentado e tendência a falar em excesso.3

À medida que os indivíduos com TDAH entram na adolescência, seus sintomas evidentes de hiperatividade e impulsividade tendem a diminuir, enquanto os sintomas de desatenção tendem a persistir.5

Em adultos, a hiperatividade pode manifestar-se como inquietação acentuada ou por um padrão de atividade que leva ao esgotamento dos outros ao redor.3

Impulsividade

A impulsividade, por sua vez, envolve dificuldade em inibir respostas imediatas, levando a interrupções frequentes, dificuldade em aguardar a vez e comportamentos precipitados, muitas vezes sem avaliação das consequências.3

Em adultos, a impulsividade se revela por meio de ações precipitadas, busca por gratificações imediatas ou da incapacidade de adiar a satisfação.3

CLASSIFICAÇÕES DO TDAH

O TDAH pode ser classificado em três apresentações clínicas: predominantemente desatento, predominantemente hiperativo-impulsivo e apresentação combinada. Essa distinção é importante para orientar o manejo clínico e educacional.3

COMORBIDADES ASSOCIADAS

As comorbidades são frequentes e incluem ansiedade, depressão, transtornos de aprendizagem, transtorno opositor-desafiador e transtorno do espectro autista. Sua identificação é essencial, pois impacta diretamente o plano terapêutico.9,10

IMPACTOS DO TDAH

O TDAH pode impactar diferentes áreas da vida. Ele não afeta apenas a atenção, mas também a forma como a pessoa se organiza, se relaciona e lida com as emoções no dia a dia. Esses efeitos podem aparecer na família, na escola ou no trabalho, nas amizades e até na forma como a pessoa se vê e se sente consigo mesma.8,10

Além disso, é comum que o TDAH venha acompanhado de outras condições, como ansiedade ou depressão, o que pode tornar os desafios ainda maiores e exigir um cuidado mais atento.9-11

Desde a infância até a vida adulta, o TDAH pode influenciar habilidades importantes, como manter o foco, planejar tarefas, tomar decisões e controlar impulsos.12,13

Consequentemente, caso não seja identificado e tratado de maneira apropriada, o TDAH pode gerar consequências significativas e prejudiciais na vida desses indivíduos.8,10

COMO É FEITO O DIAGNÓSTICO DO TDAH?

O diagnóstico do TDAH é clínico e comportamental, requerendo uma avaliação do histórico clínico, como depoimentos de familiares e educadores, e fundamentado em critérios estabelecidos por sistemas classificatórios internacionais, como o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5.ª edição, texto revisado (DSM-5-TR) e a Classificação Internacional de Doenças, 11.ª revisão (CID-11).3,6,14

A avaliação com o paciente e também com sua família por meio de entrevista com os pais ou cuidadores, coleta de informações junto à escola e uso de escalas comportamentais pode auxiliar na quantificação dos sintomas, mas não substitui o julgamento clínico.3,6,8

Além da presença dos sintomas, é indispensável haver prejuízo funcional, seja no desempenho acadêmico, profissional, nas relações sociais ou no funcionamento familiar.2,3

QUAIS SÃO AS BASES DO TRATAMENTO DO TDAH?

O tratamento do TDAH é feito de forma personalizada, de acordo com as necessidades de cada pessoa. Ele pode incluir mudanças no dia a dia, orientações para a escola ou trabalho, acompanhamento psicológico e, em alguns casos, o uso de medicamentos.

O objetivo não é só diminuir os sintomas, mas ajudar a pessoa a se sentir melhor e funcionar melhor em diferentes áreas da vida, como em casa, nos estudos, nas relações e no trabalho.6,10

Quando indicados pelo médico, alguns medicamentos, como o metilfenidato e as anfetaminas, são bastante utilizados e podem ajudar de forma significativa na melhora da atenção, do controle dos impulsos e da organização.6,15

Os medicamentos usados no tratamento do TDAH são bastante estudados e, em geral, considerados seguros quando utilizados com acompanhamento médico. Ainda assim, é importante ficar atento a possíveis efeitos colaterais, para que o tratamento possa ser ajustado sempre que necessário.5,6,15

Cada pessoa tem uma rotina e necessidades diferentes ao longo do dia. Por isso, o tratamento é adaptado de forma individual, levando em conta os momentos em que há mais dificuldade, para que o medicamento ajude justamente nesses períodos.

A dose também pode variar de pessoa para pessoa e é ajustada aos poucos, até encontrar o melhor equilíbrio entre eficácia e bem-estar.5

As intervenções comportamentais, especialmente na infância, incluindo orientação aos pais, organização de rotinas, reforço positivo e treino de habilidades socioemocionais, fazem parte do tratamento.5,6,16,17

No ambiente escolar, adaptações pedagógicas (PEI) são fundamentais para garantir acesso ao aprendizado.5

A interrupção do tratamento também coloca indivíduos com TDAH em maior risco de situações preocupantes, como acidentes de trânsito, lesões, criminalidade, incluindo crimes relacionados a drogas e reincidência violenta, depressão e problemas interpessoais.5,18-20

PAPEL DA FAMÍLIA

No caso de crianças e adolescentes, a forma como os adultos ao redor lidam com o dia a dia faz muita diferença. Aprender a se comunicar com clareza, acolher as emoções antes de corrigir comportamentos, reconhecer o esforço (mesmo quando o resultado não é perfeito) e manter uma rotina organizada ajuda a melhorar o comportamento, a autoestima, as relações sociais e o desempenho na escola.5,6,10

Quando casa, escola e profissionais de saúde trabalham de forma alinhada, os resultados costumam ser melhores e mais duradouros, facilitando o desenvolvimento emocional, social e acadêmico.5,6

Já em adultos, o apoio de familiares e amigos, ao lado da psicoterapia, como a terapia cognitivo-comportamental, pode ajudar bastante no controle dos sintomas e na organização da rotina.10,21

CONCLUSÃO

O TDAH é uma condição dinâmica, cuja manifestação clínica se modifica ao longo do desenvolvimento.3

Na infância, predominam sintomas de hiperatividade e impulsividade, frequentemente associados a dificuldades comportamentais. Na adolescência, observa-se maior impacto em aspectos acadêmicos, sociais e emocionais, com aumento do risco de baixa autoestima e dificuldades de adaptação.5,6

Na vida adulta, embora a hiperatividade motora possa diminuir, persistem frequentemente dificuldades relacionadas à organização, planejamento, gestão do tempo e regulação emocional.3

Quanto mais cedo o TDAH é identificado e acompanhado, melhores costumam ser os resultados. O diagnóstico precoce permite iniciar estratégias que ajudam a reduzir dificuldades na escola, diminuir o sofrimento emocional e desenvolver habilidades importantes para o dia a dia.5,10

O envolvimento da família, da escola e dos profissionais de saúde faz toda a diferença. Quando todos estão alinhados e se comunicam bem, o cuidado se torna mais eficaz e ajuda a pessoa a evoluir de forma mais consistente nas áreas acadêmica, social e emocional.5,6

Fontes:

1. Polanczyk G, de Lima MS, Horta BL, Biederman J, Rohde LA. The worldwide prevalence of ADHD: a systematic review and metaregression analysis. Am J Psychiatry. 2007 Jun;164(6):942-8.

2. Willcutt EG. The prevalence of DSM-IV attention-deficit/hyperactivity disorder: a meta-analytic review. Neurotherapeutics. 2012 Jul;9(3):490-9.

3. American Psychiatric Association (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. Texto revisado. 5.ª ed. Porto Alegre, RS: Artmed, 2023.

4. Sibley MH, Swanson JM, Arnold LE, Hechtman LT, Owens EB, Stehli A, et al.; MTA Cooperative Group. Defining ADHD symptom persistence in adulthood: optimizing sensitivity and specificity. J Child Psychol Psychiatry. 2017;58(6):655-62.

5. Wolraich ML, Hagan JF Jr, Allan C, Chan E, Davison D, Earls M, et al. Clinical Practice Guideline for the Diagnosis, Evaluation, and Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents.; Subcommittee on children and adolescents with attention-deficit/hyperactive disorder. Pediatrics. 2019;144(4):e20192528.

6. Drechsler R, Brem S, Brandeis D, Grünblatt E, Berger G, Walitza S. ADHD: Current Concepts and Treatments in Children and Adolescents. Neuropediatrics. 2020 Oct;51(5):315-335.

7. Faraone SV, Larsson H. Genetics of attention deficit hyperactivity disorder. Mol Psychiatry. 2019 Apr;24(4):562-75.

8. Faraone SV, Banaschewski T, Coghill D, Zheng Y, Biederman J, Bellgrove MA, et al. The World Federation of ADHD International Consensus Statement: 208 Evidence-based conclusions about the disorder. Neurosci Biobehav Rev. 2021 Sep;128:789-818.

9. Njardvik U, Wergeland GJ, Riise EN, Hannesdottir DK, Öst LG. (2025). Psychiatric comorbidity in children and adolescents with ADHD: A systematic review and meta-analysis. Clin Psychol Rev. 2025 Jun;118:102571.

10. Bogdańska-Chomczyk E, Majewski MK, Kozłowska A.Int J Mol Sci. (2025). ADHD in Adulthood: Clinical Presentation, Comorbidities, and Treatment Perspectives. 14;26(22):11020.

11. Chaulagain A, Lyhmann I, Halmøy A, Widding-Havneraas T, Nyttingnes O, Bjelland I, et al. A systematic meta-review of systematic reviews on attention deficit hyperactivity disorder. Eur Psychiatry. 2023 Nov 17;66(1):e90.

12. Krieger V, Amador-Campos JA. Assessment of executive function in ADHD adolescents: contribution of performance tests and rating scales. Child Neuropsychol. 2018 Nov;24(8):1063-87.

13. Abramov DM, Cunha CQ, Galhanone PR, Alvim RJ, de Oliveira AM, Lazarev VV. Neurophysiological and behavioral correlates of alertness impairment and compensatory processes in ADHD evidenced by the Attention Network Test. PLoS One. 2019 Jul 25;14(7):e0219472.

14. Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças – 11ª Revisão (CID-11) [Internet]. [24 de abril de 2026]. Genebra: OMS; 2022. Disponível em: https://icd.who.int/en.

15. Cortese S, Adamo N, Del Giovane C, Mohr-Jensen C, Hayes AJ, Carucci S, et al. Comparative efficacy and tolerability of medications for attention-deficit hyperactivity disorder in children, adolescents, and adults: a systematic review and network meta-analysis. Lancet Psychiatry. 2018 Sep;5(9):727-38.

16. Sibley MH, Bruton AM, Zhao X, Johnstone JM, Mitchell J, Hatsu I, et al. Non-pharmacological interventions for attention-deficit hyperactivity disorder in children and adolescents. Lancet Child Adolesc Health. 2023 Jun;7(6):415-28.

17. Gosling CJ, Garcia-Argibay M, De Prisco M, Arrondo G, Ayrolles A, Antoun S, et al. Benefits and harms of ADHD interventions: umbrella review and platform for shared decision making. BMJ. 2025 Nov 26;391:e085875.

18. Zhang L, Zhu N, Sjölander A, Nourredine M, Li L, Garcia-Argibay M, Kuja-Halkola R, et al. ADHD drug treatment and risk of suicidal behaviours, substance misuse, accidental injuries, transport accidents, and criminality: emulation of target trials. BMJ 2025;390:e083658.

19. Chang Z, Quinn PD, Hur K, Gibbons RD, Sjölander A, Larsson H, et al. Association Between Medication Use for Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Risk of Motor Vehicle Crashes. JAMA Psychiatry. 2017 Jun 1;74(6):597-603.

20. Lichtenstein P, Halldner L, Zetterqvist J, Sjölander A, Serlachius E, Fazel S, et al. Medication for attention deficit-hyperactivity disorder and criminality. N Engl J Med. 2012;367(21):2006-14.

21. Lopez PL, Torrente FM, Ciapponi A, Lischinsky AG, Cetkovich-Bakmas M, Rojas JI, et al. Cognitive-behavioural interventions for attention deficit hyperactivity disorder (ADHD) in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2018 Mar 23;3(3):CD010840.

 

BR—2600355 – 033055 – Material destinado ao público leigo.

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